Lesson Transcript

Ana Alves: Boa tarde.
Alex Andrade: Boa tarde. Que dia, né?
Ana Alves: Nossa, nem me fale. O trânsito estava impossível hoje. A cidade inteira parou por causa da chuva. Eu demorei muito tempo para chegar.
Alex Andrade: É, eu também peguei muito trânsito. Voltei de Uber, mas acho que era mais rápido ir a pé. Ainda estou me acostumando com o ritmo de São Paulo.
Ana Alves: Você é o morador novo da cobertura, não é? Entrou no mês passado.
Alex Andrade: Sou eu, sim. Alex Andrade. Décimo segundo andar.
Ana Alves: Prazer. Ana Alves. Sétimo andar. Eu trabalho com contratos de imóveis. Soube que a cobertura foi para um comprador de Porto Alegre.
Alex Andrade: Ah, você é advogada? Você acompanhou a transação do meu apartamento?
Ana Alves: Não, essa negociação foi com outro escritório. Eu não fiz o seu contrato. Mas o síndico comentou comigo. Este prédio é pequeno — tudo circula. A gente fica sabendo de tudo muito rápido.
Alex Andrade: Entendi. O síndico fala bastante, né? Ele foi muito simpático no meu primeiro dia.
Ana Alves: O Seu Raimundo é uma figura. Ele conhece a vida de todo mundo aqui no prédio.
Alex Andrade: Opa. O que foi isso?
Alex Andrade: Prendeu. O elevador não está respondendo.
Ana Alves: Fica tranquilo. Isso acontece de vez em quando. O prédio é antigo, sabe? Tem um interfone aqui. Deixa eu chamar o síndico rapidinho.
Ana Alves: Seu Raimundo? É a Ana. Tudo bem? Estamos presos no elevador, entre o sexto e o sétimo andar. Sim... aham. Isso. Estamos esperando. Obrigada, Seu Raimundo.
Alex Andrade: E aí? O que ele falou? Quanto tempo normalmente demora para voltar?
Ana Alves: Da última vez que isso aconteceu, demorou quinze minutos. O técnico mora no Itaim. Ele tem que vir até aqui.
Alex Andrade: Bom... Quinze minutos é gerenciável. A gente tem ar aqui dentro, pelo menos.
Ana Alves: Pior que isso: hoje eu estava planejando fazer academia antes do jantar. Eu estava super animada, com a minha roupa na bolsa e tudo. Agora já era.
Alex Andrade: Eu entendo. Eu estava planejando uma videoconferência às dezenove horas. Uma reunião muito importante.
Ana Alves: Sem sinal. Zero. Não consigo mandar nem uma mensagem de texto.
Alex Andrade: Claro. Acontece sempre nos piores momentos. Bom, a gente não tem internet. Não tem como avisar ninguém. A gente só pode esperar.
Ana Alves: Então — o que você faz, Alex? Já que a gente tem quinze minutos sem internet, vamos conversar.
Alex Andrade: Eu trabalho com investimentos em blockchain e tokenização de ativos reais. É uma área nova de tecnologia e finanças.
Ana Alves: Sério? Eu ouço a palavra "blockchain" três vezes por semana em reunião no meu escritório. Os clientes adoram falar isso. Mas vou ser honesta com você: eu ainda não entendo completamente o que é.
Alex Andrade: É normal. Muitas pessoas têm dúvida. Eu posso explicar para você, se você quiser.
Ana Alves: Por favor. Como a gente está sem sinal de celular, eu tenho quinze minutos de atenção total para você. Pode falar.
Alex Andrade: Certo. Imagine um caderno compartilhado—
Ana Alves: Um caderno? Tipo um caderno de escola?
Alex Andrade: Isso. Mas é um caderno digital. Imagine um caderno compartilhado que mil pessoas diferentes podem ler ao mesmo tempo. Todo mundo tem acesso. Mas a regra principal é: ninguém pode apagar nem alterar o que já foi escrito. Cada transação, cada informação, é registrada nesse caderno para sempre. Sem um banco no meio. Sem intermediário. As próprias pessoas validam tudo.
Ana Alves: Deixa eu pensar. A minha cabeça de advogada está processando isso agora. Então não tem uma empresa central que controla o caderno?
Alex Andrade: Exato. O sistema é a rede de pessoas. É seguro porque todo mundo tem a mesma cópia. Ninguém pode mentir ou mudar a informação.
Ana Alves: Nossa... Então é como um cartório, mas descentralizado.
Alex Andrade: Caramba! Isso é a melhor analogia que eu já ouvi na minha vida. É exatamente isso! Um cartório que não precisa de ninguém para assinar o carimbo.
Ana Alves: O sonho de todo brasileiro! Imagina só, não precisar pegar fila no cartório, não precisar pagar taxa para colocar carimbo no papel. A gente perde tanto tempo da vida com burocracia. Se o blockchain acaba com o carimbo, eu já sou fã.
Alex Andrade: Pois é! A ideia é simplificar e trazer confiança. E você? Você falou de contratos de imóveis. Que área do mercado você atende?
Ana Alves: Eu atendo a área residencial e comercial também. Principalmente aqui em São Paulo. Eu faço muitos contratos na região de Pinheiros, Vila Madalena, Perdizes, Itaim. Sabe? Eu conheço cada rua desses bairros como a palma da minha mão. Às vezes eu conheço melhor do que os clientes que vivem nelas.
Alex Andrade: Você nasceu em São Paulo?
Ana Alves: Sim. Paulistana da gema. Eu nasci no Brooklin. Cresci no bairro de Moema. Depois, estudei na USP, lá no Butantã. Aí, fui para o centro da cidade para trabalhar no meu primeiro escritório. E agora, voltei para o lado oeste. É uma vida inteira em trinta quilômetros de raio.
Alex Andrade: Nossa. A sua vida inteira em um espaço tão pequeno? Em Porto Alegre, trinta quilômetros cobrem a cidade inteira.
Ana Alves: Aqui trinta quilômetros é o caminho do trabalho para casa em um dia ruim de trânsito. Isso explica o olhar levemente assustado que você tinha quando entrou no prédio no primeiro dia com as suas caixas de mudança.
Alex Andrade: Eu não tinha olhar assustado. Eu estava muito tranquilo.
Ana Alves: Você tinha, sim. Eu reparei. A gente que é daqui percebe na hora quem é novo na cidade. Você estava olhando para os lados procurando um espaço para respirar.
Alex Andrade: Ok, talvez um pouco. É que Porto Alegre tem coisas que São Paulo nunca vai ter. A gente tem o Lago Guaíba. Um lugar lindo para ver o pôr do sol. A gente tem uma praça que funciona, onde as pessoas sentam para tomar chimarrão no fim de semana. E, claro, a gente tem um trânsito às dez da manhã que não me faz questionar minhas escolhas de vida.
Ana Alves: É, o nosso trânsito é complicado mesmo. Mas São Paulo tem coisas que Porto Alegre nunca vai ter.
Alex Andrade: Ah é? Diga três coisas então.
Ana Alves: Fácil. Primeiro: uma gastronomia que compete com qualquer cidade do mundo. A gente tem desde o melhor pão na chapa na padaria da esquina até restaurante premiado. Segundo: vinte e cinco milhões de histórias simultâneas acontecendo no mesmo momento. E terceiro: você, que veio de Porto Alegre, está aqui agora em vez de lá.
Alex Andrade: Nossa... Isso foi muito bom. Não tenho como discordar. Você sabe jogar com as palavras.
Ana Alves: Sou advogada. Argumento é profissão. Eu treino isso todos os dias com os contratos. Mas falando sério, eu sei que a cidade é caótica. É muito barulho, é muita gente. Mas tem uma energia aqui que você não acha em nenhum outro lugar do Brasil.
Alex Andrade: É verdade. A energia daqui é diferente. Eu tenho um sócio que mora em Curitiba. Ele sempre fala que São Paulo é uma cidade que não sabe onde quer chegar. As pessoas estão sempre correndo, sempre com pressa, mas não sabem para onde.
Ana Alves: Eu não concordo com ele. Eu diria que chegar não é o ponto de São Paulo. O ponto de São Paulo é o que acontece no meio. A vida de verdade acontece no metrô lotado, na fila do café, numa conversa com um estranho no elevador. A gente vive no caminho.
Alex Andrade: Faz sentido. Eu estou começando a entender isso aos poucos. E o café da Renata aqui do lado ajuda bastante a gostar daqui.
Ana Alves: Falando em gostar das coisas daqui... O Seu Raimundo me contou um segredo seu. Você tem uma coleção de HQs, ouvi do síndico. Ele disse que você chegou com várias caixas pesadas.
Alex Andrade: Ah. Ele falou sobre isso? É, eu tenho. Trezentas e poucas edições. Por quê? Acha coisa de criança?
Ana Alves: De jeito nenhum. O que você lê? Turma da Mônica?
Alex Andrade: Turma da Mônica Jovem foi o começo de tudo. Eu adorava ler quando era mais novo. Depois eu fui para o universo da DC, do Batman, e da Marvel. Mas hoje em dia eu prefiro outras coisas. Agora tenho algumas edições raras da Devir. Tenho a coleção do Sandman completo. Tenho Watchmen em português...
Ana Alves: Sandman? Nossa. Então você é sério mesmo. Sandman não é uma simples revistinha, é literatura pura. Eu tenho muito respeito por quem lê isso.
Alex Andrade: Você lê HQs também?
Ana Alves: Li muito quando eu era criança e adolescente. Eu lia Turma da Mônica, claro. Lia muito Asterix e Tintim também. Eu adorava o cheiro do papel daquelas revistas antigas. Mas acabei parando na época da faculdade. A vida de direito ocupa muito tempo. Você lê tantos processos que não tem energia para mais nada. Sempre achei que ia retomar a leitura um dia.
Alex Andrade: Se você quiser, eu posso emprestar o meu Sandman para você começar a ler de novo. Mas tem uma regra: não deixo sair do apartamento. É muito valioso para mim.
Ana Alves: Você empresta, mas não deixa sair da sua casa? Isso é como um museu particular!
Alex Andrade: Exatamente como um museu particular. A vantagem é que o ingresso é grátis. E você pode trazer um café da Renata ao lado para a gente tomar enquanto você lê.
Ana Alves: Fechado. Uma visita guiada ao seu museu de quadrinhos. Eu gostei da ideia.
Alex Andrade: Bom, eu já contei o meu segredo nerd. E você? O que você faz fora da advocacia e dos contratos de imóvel? O que você faz para relaxar?
Ana Alves: Olha, eu não falo muito sobre isso no trabalho. As pessoas não entendem bem. Mas eu faço teatro amador.
Alex Andrade: Teatro? Sério? Que legal! Eu não imaginava.
Ana Alves: É. Eu faço aula no SESC Pinheiros. É um grupo de teatro experimental. A gente ensaia toda semana. Toda sexta à noite eu deixo a advogada no escritório e vou para o palco. É maravilhoso.
Alex Andrade: Que tipo de peça vocês estão fazendo agora?
Ana Alves: Estamos fazendo uma versão contemporânea e um pouco maluca de Alice no País das Maravilhas. É bem diferente da história infantil. Eu faço a Rainha.
Alex Andrade: Rainha de Copas. A vilã.
Ana Alves: A mesma.
Ana Alves: CORTEM-LHE A CABEÇA!
Alex Andrade: ...Nossa. Ok. Você é boa. Muito boa. Me assustou de verdade.
Ana Alves: Obrigada. A diretora também acha. A gente trabalha muito a projeção da voz nos ensaios.
Alex Andrade: O modo como você mudou de advogada simpática para rainha maluca em um segundo foi impressionante.
Alex Andrade: Sabe de uma coisa? Então você é uma advogada especialista em contratos que faz teatro experimental nas horas vagas. E eu sou um investidor de blockchain do sul que coleciona HQs raras no tempo livre.
Ana Alves: Quebramos o molde. A gente não é exatamente o que parece à primeira vista.
Alex Andrade: É o que acontece quando o elevador fica preso. As pessoas precisam conversar de verdade, sem a máscara do trabalho.
Ana Alves: É o que acontece quando você para de fingir que é só o que trabalha. São Paulo exige muito da gente na vida profissional. Se a gente não tiver um escape, a gente fica doente.
Alex Andrade: Lá em Porto Alegre, nas reuniões de negócios, você fala de negócios. É tudo muito direto. Aqui em São Paulo, eu percebi uma coisa interessante: a reunião de verdade começa quando todo mundo termina de falar de negócios. É ali no cafezinho depois que as coisas acontecem.
Ana Alves: Olha... Isso é a coisa mais paulistana que eu já ouvi de alguém que não é paulistano. Você pegou a alma da cidade bem rápido, Alex.
Ana Alves: Finalmente. O mundo voltou a funcionar.
Alex Andrade: Quinze minutos exatos. Pontual, pelo menos. A bateria do meu celular até agradece o descanso. E o sinal já voltou.
Ana Alves: É. De volta à realidade.
Ana Alves: Aqui. Um cartão de visita. Se você precisar de alguém para rever um contrato de locação ou compra... Para o seu apartamento na cobertura, ou até para o clube de tênis que você está tentando comprar...
Alex Andrade: O tênis clube? Você sabe do tênis clube também? Eu não contei isso para ninguém no prédio!
Ana Alves: Síndico.
Alex Andrade: É claro. O Seu Raimundo é mais eficiente que a internet. Bom, deixa eu pegar o meu também.
Alex Andrade: Aqui está. Se você precisar de alguém para explicar blockchain novamente. Ou se você quiser visitar o museu e pegar o Sandman emprestado. O convite está de pé.
Ana Alves: Aceito as duas ofertas. Principalmente a do Sandman. Eu vou te mandar uma mensagem para marcar.
Ana Alves: Foi um prazer ficar presa no elevador com você. Vai com tudo, Alex. Bem-vindo a São Paulo.
Alex Andrade: Vai com tudo, Ana. E muito obrigado — pela analogia do cartório. Aquilo foi genial. Eu juro que vou usar em toda apresentação de negócios de agora em diante. Vai facilitar a minha vida.
Ana Alves: Eu aceito royalties. Pode colocar na minha conta!

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