Lesson Transcript

Renata Rodrigues: Nossa... o céu ficou escuro de repente. E essa chuva... Esse temporal não vai embora cedo, não. A rua já está virando um rio.
Alessandro Amaral: Bom dia... ou boa tarde. Perdi a noção do tempo com esse céu tão escuro. Está aberto aqui?
Renata Rodrigues: Para cliente da rua? Não. Coloquei a placa de fechado quando a água começou a subir. Mas para morador do prédio, preso pela chuva? Sempre. Entra, Alessandro. Vem para cá, sai da porta.
Alessandro Amaral: Obrigado. Eu estava tentando sair para um compromisso agora, mas isso aí... Nossa, está impossível. Não dá para andar um quarteirão sem molhar tudo.
Renata Rodrigues: É, São Paulo no inverno. Ou no verão, né? Ou na primavera. Basicamente a chuva decide seus planos, não você. A gente só obedece. Senta aí, quer uma toalha de papel para secar a jaqueta?
Alessandro Amaral: Não precisa, obrigado. Só molhou um pouquinho. O trânsito na avenida já deve estar parado, de qualquer forma. A cidade não funciona com um temporal desses.
Renata Rodrigues: Verdade. Ninguém vai a lugar nenhum agorinha. Ah, espera aí! Olha o que eu achei.
Renata Rodrigues: Achei isso lá atrás, nas caixas velhas, enquanto eu limpava a máquina de café. Acho que era do antigo morador do apartamento cento e dois. Está cheio de fotos do prédio. É muito antigo.
Alessandro Amaral: Um álbum de fotos? Deixa eu ver. Quantos anos tem esse álbum, você acha? A capa está bem gasta.
Renata Rodrigues: Ah, deve ser dos anos setenta. Olha a qualidade da foto. A cor amarelada, o tipo de papel. E as roupas, né? Muita calça boca de sino. E os óculos das pessoas... cobrem metade do rosto! E o bigode. Muito bigode.
Alessandro Amaral: Todo homem nos anos setenta no Brasil tinha esse bigode. É uma lei que eles revogaram depois.
Renata Rodrigues: Sério! Meu pai tinha um igualzinho. Tem foto dele no casamento. O bigode dele era enorme! Olha essa foto aqui. Essa mulher deve ser a dona do café original. Olha o uniforme dela. E parece que era um bar mesmo, não uma cafeteria chique como hoje. Tem garrafa de cachaça na prateleira.
Alessandro Amaral: Mais honesto. Um bar às seis da manhã... isso sim é serviço público. Muito mais útil para o trabalhador.
Renata Rodrigues: Você acha? Imagina tomar uma dose de cachaça antes de ir para o trabalho.
Alessandro Amaral: Tem dias que São Paulo exige isso, Renata.
Renata Rodrigues: É verdade. Olha essa página aqui. As fotos já são de outra época. As roupas mudaram.
Renata Rodrigues: Espera... olha isso! Esse cabelo roxo! Quem é essa pessoa na frente do elevador? Quem autorizou isso? Gente, que cor estranha!
Alessandro Amaral: Parece uma berinjela.
Renata Rodrigues: Alessandro! Isso é horrível! E completamente certo. É uma berinjela exata! A mesma cor do legume do mercado!
Alessandro Amaral: Eu não julgaria a pessoa. Os anos noventa foram difíceis para todos. A moda era complicada. Ninguém sabia o que estava fazendo com o próprio cabelo.
Renata Rodrigues: Ah, eu não posso falar muito. Eu tive uma fase assim em Ribeirão Preto. Com franja. Uma franja muito curta e muito torta. Minha mãe tem foto, infelizmente. A foto não sai de circulação. Todo almoço de domingo ela quer mostrar para as visitas.
Alessandro Amaral: A fase berinjela é universal. Todo mundo tem uma foto que quer esconder. Você, eu, a moça da foto.
Renata Rodrigues: Você tem foto engraçada também? Não acredito. Você parece tão sério.
Alessandro Amaral: Um dia, se você tiver muita sorte, eu te mostro. Mas não hoje.
Renata Rodrigues: Toma. Fiz um cafezinho pra gente esquentar. O tempo esfriou muito com a chuva.
Alessandro Amaral: Muito obrigado. O cheiro está ótimo.
Renata Rodrigues: Sabe de uma coisa? Eu estava pensando... Você é de Salvador, não é? Eu ouço no sotaque às vezes. Quando você fala rápido, aparece um pouquinho.
Alessandro Amaral: Salvador sim. Nasci no Pelourinho, cresci no Cabula. Saudade de lá. Vim para São Paulo aos vinte e dois anos. Prestei concurso da polícia e passei. Achei que ia ficar só um tempo.
Renata Rodrigues: E ficou.
Alessandro Amaral: E fiquei. Não planejei ficar. A gente nunca planeja essas coisas, né? Mas vinte e dois anos depois, aqui estou. No quinto andar desse prédio, tomando um café excelente, olhando foto de berinjela enquanto chove na cidade grande.
Renata Rodrigues: A vida leva a gente para lugares estranhos. Salvador é tão diferente de São Paulo?
Alessandro Amaral: Renata... Salvador tem uma relação diferente com o tempo. O presente existe de verdade lá. A gente senta, conversa, vive o momento. Sente o sol. Aqui em São Paulo, o presente já é passado antes de você perceber. Tudo é rapidinho. É a próxima reunião, o próximo destino, o próximo problema para resolver. A cidade não respira.
Renata Rodrigues: Nossa... eu sinto isso também. Eu vim de Ribeirão Preto. Levei quase um ano para parar de me sentir... afogada. Parecia que eu estava sempre atrasada para alguma coisa, mesmo sem ter compromisso.
Alessandro Amaral: E agora? Passou?
Renata Rodrigues: Agora eu acho que aprendi a nadar do jeito São Paulo. Não é mais confortável. É cansativo às vezes. Mas é o jeito aqui. A gente acostuma com o barulho, com a pressa, com as pessoas correndo.
Alessandro Amaral: Ribeirão Preto... agro forte, não é? Muito calor, plantação de cana-de-açúcar?
Renata Rodrigues: Sim! Cana, laranja, muito café. A cidade é muito quente, o sol queima a pele. Meu pai trabalhava em usina de cana. Ele amava aquele trabalho. Eu saí de lá bem nova para estudar gastronomia aqui em São Paulo. Depois conheci o mundo do café especial. E acabou que o emprego ficou dentro do prédio onde moro. Prático, né?
Alessandro Amaral: A vida tem esse humor. Você sai de longe para trabalhar no lugar onde você dorme.
Renata Rodrigues: Tem. E sabe de uma coisa? Minha mãe ainda acha que vou voltar para Ribeirão. Ela me liga todo fim de semana e fala: "Quando você vem para casa?". Eu não digo que não vou, só para não cortar o coração dela. Digo que estou vendo as coisas, que talvez ano que vem...
Alessandro Amaral: Minha filha faz o mesmo comigo. Ela estuda medicina lá em Salvador. Ela sempre diz que "vai ver" se fica lá quando terminar o curso. Eu já sei que ela vai ficar lá. Ela ama a Bahia. Mas eu não digo nada. A gente faz esse jogo de faz de conta porque é mais fácil.
Renata Rodrigues: É... a gente cresce e os pais precisam acostumar com a distância. Deve ser difícil para você ficar longe dela.
Alessandro Amaral: É. Mas a gente fala por telefone sempre. Ela está feliz lá. Isso é o que importa.
Renata Rodrigues: Ah, olha aqui nesta outra página. As fotos mudaram de novo. Onde está a lavanderia hoje, ali na rua de baixo... tinha uma tinturaria antes. Olha o letreiro na porta.
Alessandro Amaral: Tinturaria Teixeira. Parece que era um negócio familiar. Hoje em dia não se vê muita tinturaria assim, pequena.
Renata Rodrigues: Verdade. Aposto que o senhor Teixeira aposentou e ninguém da família quis continuar o negócio. Os filhos não quiseram o trabalho duro. Ou... o aluguel ficou caro demais.
Alessandro Amaral: As duas coisas, provavelmente. Em São Paulo é sempre as duas coisas. O aluguel sobe, as pessoas velhas saem, os prédios mudam. O dinheiro sempre manda.
Renata Rodrigues: É triste pensar assim. Mas esse prédio é diferente, acho. Tem pessoas que ficam por muito tempo, que cuidam daqui. O senhor Raimundo no terceiro andar está aqui desde mil novecentos e oitenta e seis. Ele conhece cada parede desse prédio.
Alessandro Amaral: Ele é feliz morando aqui tanto tempo?
Renata Rodrigues: Muito! Ele é a pessoa mais animada do prédio. Ele faz feijoada todo sábado para o andar inteiro quando está de bom humor. O cheiro da carne de porco, do feijão preto, da couve... espalha pelo corredor inteiro. É uma delícia.
Alessandro Amaral: Esse é o tipo de vizinho que a cidade precisa e raramente tem. A maioria das pessoas só fecha a porta e não quer saber de ninguém.
Renata Rodrigues: É, a gente tem sorte com ele. Hum, esse aqui... não sei.
Alessandro Amaral: O que foi?
Renata Rodrigues: Olha essa foto. Parece mais recente, né? Mas o papel já amarelou um pouquinho. O homem está na frente do prédio.
Alessandro Amaral: Não reconheço. Parece morador, mas tem muito equipamento com ele. Olha essa mochila. Parece mochila de expedição para montanha. Muito grande para ir trabalhar no escritório.
Renata Rodrigues: Sabe quem tem cara de expedição aqui no prédio? O Alan, do oitavo andar. Ele é estranho. Eu o encontrei uma vez no corredor. Eram cinco da manhã! Eu estava saindo para abrir o café, e ele estava lá no elevador. Com uma mochila enorme nas costas... e um remo. Um remo de verdade, nas mãos.
Alessandro Amaral: Um remo? Às cinco da manhã? Onde ele ia remar? Na rua Augusta?
Renata Rodrigues: Eu não perguntei! Fiquei com medo de parecer intrometida. São Paulo é uma cidade de muitas histórias. Você aprende a não perguntar cedo demais, sabe? Deixa as pessoas com os segredos delas.
Alessandro Amaral: Você fez bem. Mas olha a foto de novo. Esse cara aí na imagem foi pra algum lugar frio. O olhar dele tem aquela coisa... sabe? Quem ficou longe da civilização por muito tempo tem um olhar assim. Um olhar parado, acostumado com o silêncio. Eu vejo muito isso na polícia.
Renata Rodrigues: Nossa, que observação de detetive, Alessandro! Você acha mesmo?
Alessandro Amaral: Anos de experiência olhando para as pessoas na rua. Você aprende a ler o rosto.
Alessandro Amaral: Sabe de uma coisa, Renata... Você acha que os moradores novos conhecem a história disso aqui? Desse prédio, da tinturaria, do café antigo?
Renata Rodrigues: Não... claro que não. A maioria não sabe nem o nome dos vizinhos de porta. Entram no elevador, olham para o celular e não dizem nem bom dia. Você conhece os seus vizinhos?
Alessandro Amaral: Honestamente? Conheço você agora, por causa da chuva. Conheço o senhor Raimundo de vista, claro, porque é impossível não notar ele. E conheço o cara do quarto andar porque ele discute no telefone de madrugada com a voz muito alta. Dá para ouvir da minha cama.
Renata Rodrigues: Ah, esse é o Marcinho! Ele é empresário. Ele vive no telefone vendendo alguma coisa. Acho que ele nunca dorme.
Alessandro Amaral: É maluco. Vinte e dois anos nessa cidade e às vezes ela ainda parece nova para mim. Tanta gente, tanta vida passando pela gente o tempo todo.
Renata Rodrigues: Talvez seja assim mesmo, Alessandro. São Paulo não deixa você completamente acomodado. Tem sempre outra camada, sabe? Sempre uma história nova escondida atrás de uma porta. Igual a esse álbum de fotos. A gente acha que conhece o lugar, e de repente descobre um mundo de coisas novas.
Alessandro Amaral: É verdade. Muito bem dito.
Alessandro Amaral: Olha só. A chuva parou. Dá para ouvir o barulho do ônibus lá fora de novo. Acho que vai dar para sair agora.
Renata Rodrigues: O seu compromisso ainda existe? Você não está muito atrasado?
Alessandro Amaral: Provavelmente prescreveu. Já perdi o horário faz tempo. Mas tudo bem. A vida continua. Foi bom ficar preso pela chuva, Renata. De verdade. Obrigado pelo café e pela conversa.
Renata Rodrigues: Ah, que bom! Olha, você pode ficar preso aqui sempre que quiser, viu? Não precisa de chuva. Tem café quente e álbum de foto velho todo dia.
Alessandro Amaral: Vou cobrar o convite. Ei, Renata.
Renata Rodrigues: Oi?
Alessandro Amaral: O Alan do oitavo andar... da próxima vez que você encontrar ele no corredor, com remo ou sem remo, pergunta de onde ele veio.
Renata Rodrigues: Por quê? O que você está pensando?
Alessandro Amaral: Porque aquele olhar na foto... eu reconheço de pessoas que ficaram muito longe por muito tempo. Faz sentido com a mochila e o remo. Pergunta para ele. Vai ser uma história boa.
Renata Rodrigues: Tá bom, senhor detetive. Vou perguntar. Bom dia, Alessandro!
Alessandro Amaral: Bom dia, Renata. E cuidado com a fase da berinjela.
Renata Rodrigues: Pode deixar! Tchau!

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