| Victor Vieira: E aí, pessoal! Bom dia! Tudo bem com vocês? Eu estou aqui agora na feira livre, em São Paulo. Sábado de manhã. O sol já está muito forte, está quente, tem muito barulho... e é simplesmente perfeito. Olhem isso. |
| Victor Vieira: Para quem não conhece o nosso restaurante ainda, a nossa filosofia é simples. A gente quer comida de verdade. A gente quer sabor puro. Então, eu vim aqui hoje buscar os melhores ingredientes para o nosso novo menu. |
| Victor Vieira: Eu quero mostrar para vocês de onde vem a nossa comida. Quem planta, quem colhe, quem vende. Porque o sabor começa aqui, na rua, na terra. Eu vou mostrar umas coisas incríveis que achei hoje. Vamos lá? |
| Victor Vieira: Olha só essa barraca de vegetais. As cores são... |
| Victor Vieira: Ai, não. Não é possível. |
| Vanessa Vieira: Victor? Ô, Victor! |
| Victor Vieira: Mãe. O que você está fazendo aqui? |
| Vanessa Vieira: O que eu estou fazendo? Eu estou comprando, ué. Tenho que cozinhar para um monte de gente no domingo, a família inteira vai em casa. E você? E guarda esse celular agora, menino. Você parece turista. |
| Victor Vieira: Mãe, eu não sou turista. Eu estou trabalhando. É para o vídeo do restaurante. Para as redes sociais. As pessoas querem ver de onde a comida vem, sabe? |
| Vanessa Vieira: As pessoas querem comer, Victor. Não querem ver vídeo. E você está bloqueando o caminho da mulher com o carrinho ali. Sai da frente. |
| Victor Vieira: Tá bom, tá bom. Vem cá, olha essa barraca. |
| Vanessa Vieira: Ah, pimentões. Esses aqui estão ótimos. Estão firmes, bem frescos. Vou levar três verdes e dois vermelhos. |
| Victor Vieira: Mãe, espera. Esses pimentões são normais demais. Olha aqueles ali no canto. |
| Vanessa Vieira: Aqueles? Mas eles são todos tortos. |
| Victor Vieira: Sim! Olha o formato! Eles têm personalidade. Eles têm uma história. |
| Vanessa Vieira: Personalidade? Victor, eu quero um pimentão que é fácil de cortar. Vocês, chefs de agora... adoram legume feio. Acham que legume feio é chique. |
| Victor Vieira: Não é feio, mãe. Isso é o conceito "do campo à mesa". É muito importante hoje em dia. |
| Vanessa Vieira: Do campo à mesa? Toda comida vem do campo, meu filho. De onde mais ia vir? Do céu? |
| Victor Vieira: Não é isso. Significa conhecer quem produz! É uma coisa pessoal, de confiança. |
| Vanessa Vieira: Mas eu conheço quem produz. Olha lá... Seu Antônio! Tá bom o joelho, Seu Antônio? Melhorou da dor? |
| Vanessa Vieira: Viu só? O Seu Antônio me vende legumes aqui desde que você era criança. A gente nunca falou "do campo à mesa". A gente fala... "toda quinta". É simples assim. |
| Victor Vieira: Você sempre tem uma resposta, né? Mas vem ver os tomates. |
| Victor Vieira: Olha esses tomates coloridos. Tomate amarelo, tomate roxo. A cor, a complexidade da água deles... Eu quero servir isso cru. Só com um pouquinho de sal de boa qualidade. |
| Vanessa Vieira: Eles estão muito moles, Victor. Vão desmanchar na panela. Eu preciso daqueles tomates italianos ali. Bem firmes. Eles fazem um molho maravilhoso. |
| Victor Vieira: Tomate italiano normal? Mas eles não têm muito sabor sozinhos, mãe! |
| Vanessa Vieira: Eles são baratos e não estragam rápido. Você cobra duzentos reais por um prato com três fatias de tomate. Os meus convidados querem um guisado quente no domingo.Os meus convidados querem um guiso quente no domingo. Querem comida no prato, não uma aula de ciências. |
| Victor Vieira: Não é ciência! É respeito pelo ingrediente. Eu estou ensinando a minha equipe a respeitar o sabor. O sabor começa na terra, mãe. |
| Vanessa Vieira: Você está ensinando a sua equipe a ser difícil. Um cozinheiro de verdade faz qualquer ingrediente ficar gostoso. Se você precisa do tomate perfeito para cozinhar... você ainda tem muito a aprender. |
| Victor Vieira: Ai, mãe. Essa doeu. Sério. |
| Vanessa Vieira: A verdade dói. Mas eu te amo. Vem, vamos ver as folhas. |
| Victor Vieira: Vamos falar das folhas, então. O que você vai comprar? |
| Vanessa Vieira: Coisa boa. Preciso de couve-manteiga e rúcula. Bastante couve, na verdade. |
| Victor Vieira: Olha essa couve manteiga bem escura. Eu quero usar no restaurante. Quero servir crua. Cortar bem fino, colocar limão, azeite, e pronto. |
| Vanessa Vieira: Crua? Couve manteiga é dura, menino! Você tem que refogar. Com bastante alho, um fio de óleo, azeite. Tem que ter tempo no fogo. |
| Victor Vieira: Ah, mãe. Esse é o estilo antigo. Vocês cozinham até a folha ficar cinza. Perde a cor toda. |
| Vanessa Vieira: Cinza? A minha couve não fica cinza! Fica macia. Fica uma delícia. E sabe aquele caldinho que fica no fundo da panela? Aquilo é a melhor parte. |
| Victor Vieira: É... eu sei. É muito gostoso, é verdade. Mas é pesado. Eu quero a crocância da folha, sabe? Quero a cor verde bem viva. Trinta segundos na frigideira e pronto. |
| Vanessa Vieira: E os seus clientes vão mastigar uma folha só por dez minutos. Eu sei o que você quer de verdade. Você quer que a comida fique bonita para a foto da internet. |
| Victor Vieira: Não é para a foto! É para a alma do prato! |
| Vanessa Vieira: A alma? A alma da comida é encher a barriga das pessoas. Você complica tudo, meu filho. Igualzinho a sua mãe. |
| Victor Vieira: Pelo menos você admite. |
| Vanessa Vieira: Ai, minhas costas. Pega essa sacola pra mim. Está muito pesada. |
| Victor Vieira: Nossa, você comprou muita coisa. Como você veio pra cá? Com o carro do pai? |
| Vanessa Vieira: De ônibus. Estacionar o carro aqui perto da feira é um sufoco. Não tem lugar nenhum. E vir de ônibus é um bom exercício. Falar com tanta gente na feira me cansa. E você também me cansa. |
| Victor Vieira: Obrigado pelo elogio. Peraí, olha isso aqui! |
| Vanessa Vieira: O que foi agora? |
| Victor Vieira: Mãe, olha isso! É chuchu roxo. Que incrível. |
| Vanessa Vieira: Chuchu é chuchu, Victor. Esse aí só tem uma cor diferente. O gosto de água é o mesmo. |
| Victor Vieira: A cor é o ponto principal! Eu vou cortar ele bem fino. Fatias quase transparentes. Vai ser um carpaccio de vegetais. |
| Vanessa Vieira: Carpaccio de chuchu? Pelo amor de Deus. Só fala que é salada, Victor. É mais honesto. |
| Victor Vieira: É marketing, mãe. A gente tem que vender o conceito para o cliente. |
| Vanessa Vieira: Eu vendo a feijoada e ninguém reclama do marketing. Falando em comida de verdade, a gente vai na barraca de carne ou não? |
| Victor Vieira: Vamos. Fazer o quê. |
| Vanessa Vieira: Bom dia! Eu preciso de carne para o bolo de carne de domingo. Dois quilos, por favor. Pode deixar um pouco da gordura. |
| Victor Vieira: Bolo de carne? Mãe, está trinta graus lá fora. Muito calor. |
| Vanessa Vieira: As pessoas sentem fome no calor também, meu filho. Nem todo mundo quer comer espuma e carpaccio de chuchu. |
| Victor Vieira: Não é espuma, é um molho leve! Mas... tá bom. Como você faz o seu bolo de carne mesmo? Faz tempo que não vejo você fazer. |
| Vanessa Vieira: É simples. Carne com um pouco de gordura, porque se não tiver gordura, fica muito seco. E o segredo: um pão amanhecido, aquele pão duro, sabe? Eu deixo ele de molho no leite e misturo na carne. |
| Victor Vieira: Pão no leite! Mãe! Isso é genial! Isso é panade! É técnica francesa! |
| Vanessa Vieira: Técnica o quê? |
| Victor Vieira: Técnica francesa! Os grandes chefs usam isso há séculos para colocar umidade na carne. Para não deixar ela seca. |
| Vanessa Vieira: Não sei de chef francês nenhum. É o que a sua avó Benedita sempre fazia. A vida inteira. |
| Victor Vieira: Mas é a mesma coisa! É exatamente isso que eu estou dizendo! O conceito "do campo à mesa" é, na verdade, a cozinha da vovó! É a tradição! |
| Vanessa Vieira: Se é a comida da vovó, então por que o seu restaurante é tão caro? |
| Victor Vieira: Porque fazer a coisa certa custa dinheiro, mãe. Os ingredientes bons são caros. O Seu Antônio também precisa ganhar a vida, né? |
| Vanessa Vieira: Eu pago o Seu Antônio em dinheiro vivo. Não preciso de Pix para comprar cenoura. |
| Victor Vieira: Você é impossível. Típica pessoa de Virgem. Tudo tem que ser do seu jeito, do seu modo antigo. |
| Vanessa Vieira: E você é de Leão. Todo exibido. "Olha o meu pimentão retorcido, que coisa mais linda, vou tirar uma foto". |
| Victor Vieira: Mas é um pimentão lindo mesmo! |
| Vanessa Vieira: Tem o mesmo gosto de qualquer outro pimentão. Vem cá, vamos comprar pêssegos. |
| Victor Vieira: Nossa. Sente esse cheiro? Perto da barraca de pêssegos. Cheira a flores. Isso é o cheiro do verão. |
| Vanessa Vieira: Sim, eles estão muito bonitos hoje. Estão bons. E o que você vai fazer com eles? Vai transformar em espuma também? |
| Victor Vieira: Não. Eu quero grelhar na churrasqueira. Pêssego grelhado, servido com um pedaço de queijo-coalho bem dourado. |
| Vanessa Vieira: Hum... Olha. Isso parece gostoso mesmo. O doce da fruta com o salgado do queijo coalho... |
| Victor Vieira: Espera aí. Você acabou de dizer que gostou da minha ideia? A grande chef Vanessa aprovou? |
| Vanessa Vieira: Não fica muito feliz. É só queijo e fruta. É uma coisa simples. Por isso que é bom. Você vai no almoço no domingo, né? |
| Victor Vieira: Para comer de graça? Eu nunca estou ocupado. O que mais vai ter? |
| Vanessa Vieira: Bom, tem o bolo de carne. E eu vi um robalo muito bonito na barraca de peixe. Vou fazer para o seu pai. |
| Victor Vieira: Robalo fresco? Nossa, isso é muito bom. Muito chique. |
| Vanessa Vieira: Eu só gosto do sabor, filho. Não é para ser chique. |
| Victor Vieira: Posso chegar mais cedo no domingo? Eu faço o peixe, e você faz os legumes. Que tal? |
| Vanessa Vieira: Olha lá, hein. Não traz aqueles seus instrumentos de cirurgião para a minha cozinha. Pinça, termômetro... não quero isso lá. |
| Victor Vieira: Prometo! Sem instrumentos. Só uma frigideira e fogo. Eu quero deixar a pele do peixe bem crocante. |
| Vanessa Vieira: Se você queimar a pele do peixe e estragar o almoço do seu pai, a gente vai pedir pizza. E você vai pagar. |
| Victor Vieira: Fechado. Mas deixa eu comprar os tomates coloridos. Eu quero fazer um suco de tomate para colocar com o peixe. Só o líquido transparente, sabe? É delicioso. |
| Vanessa Vieira: Suco? Para o peixe? Você vai gastar dinheiro com tomates caros para fazer suco? |
| Victor Vieira: É a alma do tomate, mãe! Concentra todo o sabor! |
| Vanessa Vieira: Tá bom, tá bom. Faz o seu suco transparente. Eu faço o arroz. |
| Victor Vieira: Arroz com peixe? Fica perfeito. A gente faz uma boa dupla. |
| Vanessa Vieira: Eu sei cozinhar, e você sabe que eu sei. |
| Victor Vieira: Eu sei. Você me ensinou tudo. Mesmo sendo muito teimosa. |
| Vanessa Vieira: Não sou teimosa, Victor. Sou consistente. São coisas diferentes. |
| Victor Vieira: Se você diz... Olha aqui, barraca de cogumelos. |
| Vanessa Vieira: Victor, vamos embora, já compramos tudo. |
| Victor Vieira: Mãe, rapidinho! Olha esses shiitakes e shimejis frescos. Eu quero transformar isso em pó de cogumelo. Para jogar por cima do peixe no final. |
| Vanessa Vieira: Pó? Você quer dar cinza para o seu pai comer? Que horror! |
| Victor Vieira: É um condimento, mãe! Ajuda a concentrar o sabor! Fica incrível! |
| Vanessa Vieira: Sal e salsinha concentram o sabor! Por que você complica tudo o tempo todo? |
| Victor Vieira: Porque o simples é chato às vezes! As pessoas vão no restaurante e querem algo novo. Se eu sirvo um cogumelo grelhado normal, ninguém liga. Se eu sirvo "pó de cogumelo", as pessoas dizem "Uau!". |
| Vanessa Vieira: E esse é o seu problema, filho. Você cozinha para os olhos. Você cozinha para as pessoas acharem bonito. Quando as pessoas vêm comer na minha casa, elas limpam a boca com o guardanapo e falam: "Nossa, que gostoso." Essa é a única avaliação que importa para mim. |
| Victor Vieira: É. Pensando bem, você tem razão. Mas a gente não pode fazer os dois? Ser gostoso e também ser bonito? |
| Vanessa Vieira: Só se você respeitar o ingrediente primeiro. O sabor vem antes da beleza. |
| Victor Vieira: Sim, mestre. Entendido. |
| Vanessa Vieira: Então compra logo os cogumelos. Inteiros. Eu vou fazer eles inteiros, com muito azeite e alho. |
| Victor Vieira: Com alho. Vai ficar muito bom. |
| Vanessa Vieira: Agora me ajuda a carregar essas sacolas. Ou eu vou bater na sua cabeça com essa abobrinha. |
| Victor Vieira: Calma! Violência não é a resposta para tudo. |
| Vanessa Vieira: Na cozinha, às vezes é a única resposta. |
| Victor Vieira: Você me dá medo, mãe. Sério. |
| Vanessa Vieira: Eu te criei, não criei? Sobreviveu até agora. |
| Victor Vieira: Sobrevivi, mas deu trabalho.Sobrevivi, mas foi um trabalho difícil. Fui uma criança traumatizada. |
| Vanessa Vieira: Ai, coitadinho. Eu lembro de você pequeno chorando. "Não gosto de chuchu, mãe, é sem graça." |
| Victor Vieira: Porque você cozinhava demais! Chuchu feito do jeito certo tem muito sabor! |
| Vanessa Vieira: Ah, não. Lá vem a história do chuchu de novo. Ninguém merece. |
| Victor Vieira: Vamos embora antes que o gelo do peixe derreta. |
| Vanessa Vieira: Desliga essa gravação logo, menino. Chega de vídeo por hoje. |
| Victor Vieira: Só a última frase! Fala para a câmera: o que a gente vai fazer no domingo? |
| Vanessa Vieira: Comida. |
| Victor Vieira: Não, mãe! Tem que ser chique! "Gastronomia autoral inspirada na tradição familiar brasileira!" |
| Vanessa Vieira: Pega a sacola, Victor! Anda logo! |
| Victor Vieira: Tá bom, tá bom, já vou! Tchau, pessoal! |
| Victor Vieira: O almoço de domingo aconteceu. E foi... uma experiência. A minha mãe usou as panelas velhas e pesadas dela. Eu usei as minhas ferramentas novas e afiadas. A gente é muito diferente na cozinha. Para ela, comida é carinho, é família, é amor. Para mim, também é amor, mas é arte. É inovação. |
| Victor Vieira: Mas sabe de uma coisa? Quando o peixe saiu da frigideira, com a pele crocante, e a gente colocou do lado do arroz soltinho dela... deu certo. Foi uma combinação perfeita. Estava delicioso. |
| Victor Vieira: A gente não conversou muito na hora de comer. O calor estava muito forte, a casa estava cheia, todo mundo falando alto. A gente só sentou e comeu. Às vezes, uma refeição muito gostosa conserta tudo. Resolve qualquer briga. Ah, e ela disse que o meu suco transparente de tomate não ficou "ruim demais". Vindo dela, isso é praticamente três estrelas Michelin. Eu fiquei muito feliz com isso. |
| Victor Vieira: Na semana que vem, eu vou tentar ensinar para ela sobre fermentação. Quero fazer uns vegetais fermentados. Spoiler: ela acha que fermentação é só comida estragada. Vai ser uma guerra. |
| Vanessa Vieira: Victor! Você já lavou a louça? |
| Victor Vieira: Está de molho, mãe! Daqui a pouco eu lavo! |
| Vanessa Vieira: Vem lavar agora! O sabão não faz milagre sozinho! |
| Victor Vieira: Tenho que ir. A chefe está chamando. Até a próxima! |
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