| Renata Rodrigues: Bom dia! Bem-vindo. Nossa, que frio lá fora hoje, né? |
| Victor Vieira: Muito frio. Frio e barulho. Bom dia, Renata. |
| Renata Rodrigues: Nossa... Bom dia, Victor! Você chegou parecendo que dormiu dentro do ônibus... ou não dormiu, né? Está com uma cara muito cansada hoje. |
| Victor Vieira: Eu não dormi. Rodovia Anhanguera às seis da manhã. Dois caminhões de cana-de-açúcar na faixa da esquerda. Dois. Na esquerda. |
| Renata Rodrigues: Na faixa da esquerda? Mas eles não podem ficar lá. |
| Victor Vieira: Eu sei! Mas eles estavam lá. Um caminhão estava a quarenta quilômetros por hora. O outro caminhão decidiu passar. Mas ele estava a quarenta e um quilômetros por hora. Foram vinte minutos de agonia. E eu só olhando o relógio. O ônibus inteiro estava frustrado. |
| Renata Rodrigues: Que pesadelo. Cafezinho já. Sem discussão. |
| Victor Vieira: Por favor. Eu preciso muito disso. A minha alma ainda está no quilômetro cinquenta da estrada. Eu acordei às quatro da manhã hoje. Quatro da manhã. O despertador tocou e eu pensei: por que eu faço isso com a minha vida? |
| Renata Rodrigues: Você faz isso porque você ama o seu trabalho, Victor. Senta aí. Relaxa um pouquinho. A cadeira está livre hoje. O dia está só começando. |
| Victor Vieira: Obrigado. É verdade, eu amo o que eu faço. Mas o trânsito de São Paulo não ajuda. Pelo menos o cheiro da sua cafeteria sempre salva o meu dia. O cheiro de café fresco é a melhor coisa do mundo. |
| Renata Rodrigues: Ah, que bom! Eu cheguei agorinha também. Já liguei a máquina, já arrumei tudo. E hoje eu tenho uma coisa muito boa para você. |
| Renata Rodrigues: Esse aqui é um café especial da região de Santos. É de um pequeno produtor. A colheita é de dois mil e vinte e quatro. Bem fresquinho. Tem notas de caramelo e laranja.Tem nota de caramelo e laranja. E eu coei na Hario V60. |
| Victor Vieira: Hario V60? Aquele filtro de papel diferente? |
| Renata Rodrigues: Isso! O filtro de papel é especial. Ele tira a parte amarga do café. A água quente acorda o café, sabe? Fica com um sabor muito limpo. Muito perfeito. |
| Victor Vieira: Renata... isso não é café. Isso é um milagre medicinal. Sério. |
| Renata Rodrigues: Eu sabia que você ia gostar! O segredo é a temperatura da água. Tem que ser noventa e três graus. Não pode estar fervendo de verdade, porque queima o pó. E o café veio de um sítio perto de Caconde. Você sabia que o interior de São Paulo produz alguns dos melhores grãos do país? |
| Victor Vieira: Noventa e três graus. Exatos. Você é incrível. E sim, o interior é maravilhoso. Mas olha... esse caramelo... eu consigo sentir. É muito bom. Normalmente, o café que eu tomo na rodoviária de Campinas tem gosto de tristeza. |
| Renata Rodrigues: Café de rodoviária é sempre muito complicado, né? É só água preta, muito açúcar e um gosto de pneu queimado. |
| Victor Vieira: Exatamente. Mas sabe de uma coisa? Você estuda mais sobre café do que eu estudo sobre comida e isso me incomoda profundamente. |
| Renata Rodrigues: Ah, para com isso! Eu só gosto de ler sobre o assunto. A gente precisa valorizar o que é nosso, né? O nosso país tem coisas muito boas. |
| Victor Vieira: É verdade. A gente tem que dar valor. |
| Renata Rodrigues: Você quer um pãozinho de queijo para acompanhar o seu milagre medicinal? Saiu do forno agorinha. |
| Victor Vieira: Nossa, quero sim. Um pão de queijo quentinho agora é tudo que eu preciso. A padaria lá perto de casa é boa, mas o seu pão de queijo é especial. |
| Renata Rodrigues: Então... me conta. O que traz você a São Paulo hoje? Reunião de novo? |
| Victor Vieira: Então... estou aqui por causa de um fornecedor novo. Um cara em Jundiaí que cultiva cogumelos shitake e funghi porcini. |
| Renata Rodrigues: Cogumelos de Jundiaí? Isso é... inesperadamente chique para Jundiaí, com todo respeito. |
| Victor Vieira: Eu sei! Eu também pensei a mesma coisa. Mas ele faz um trabalho incrível. É tudo orgânico, sabe? Com certificado e tudo. O nome dele é Seu João. A fazenda dele é linda. Quero colocar no menu do outono do meu restaurante. |
| Renata Rodrigues: Que legal, Victor! E os cogumelos do supermercado não são bons? |
| Victor Vieira: Não, de jeito nenhum. Cogumelo de supermercado parece uma esponja com água. Não tem sabor. É exatamente essa surpresa que eu quero no prato. O cliente espera algo sofisticado e descobre que veio de cinquenta quilômetros daqui. Do campo à mesa, de verdade. |
| Renata Rodrigues: Eu adoro essa ideia. É muito importante saber de onde vem a nossa comida. Seu cardápio tem mudado muito? Ultimamente você parece mais animado quando fala do restaurante. |
| Victor Vieira: Muito! Eu estou testando muitas coisas novas. Coloquei uma entrada nova na semana passada. É um prato para o frio. |
| Renata Rodrigues: Hum, o que é? Conta tudo. |
| Victor Vieira: É um caldo de mandioca. |
| Renata Rodrigues: Caldo de mandioca? Parece muito bom, mas é simples, né? |
| Victor Vieira: Sim, mas o segredo está nos ingredientes. É um caldo de mandioca com frango caipira desfiado e farofa de banana-da-terra. O frango caipira cozinha por muitas horas. Fica muito macio. E a banana-da-terra é frita na manteiga. |
| Renata Rodrigues: Nossa! Frango caipira e banana-da-terra? Que combinação maravilhosa. Deu água na boca agorinha. |
| Victor Vieira: Parece simples. Mas as pessoas provam e ficam com os olhos marejados. Lembra a comida da avó, sabe? A comida da fazenda. É comida que abraça a gente. |
| Renata Rodrigues: Que delícia, Victor. Eu preciso ir a Campinas provar isso. A minha avó sempre fazia caldo de mandioca no interior. Traz uma memória tão boa. |
| Victor Vieira: Você precisa ir mesmo! A gente guarda uma mesa especial para você. Pode ir quando quiser. |
| Renata Rodrigues: Eu vou cobrar essa mesa, hein! |
| Victor Vieira: E você? O que está aprontando fora dessas quatro paredes? Você não vive só de fazer café bom, né? |
| Renata Rodrigues: Ah, muitas coisas! Fui na escalada no sábado. |
| Victor Vieira: Escalada? Aquela de subir na pedra com corda? |
| Renata Rodrigues: Essa mesma. Tem uma via nova no Parque Estadual da Cantareira. Fica na zona norte, sabe? É uma reserva gigante. Descobri com um grupo da semana passada. A gente foi muito cedo. O ar lá em cima é tão limpo. Tem árvores enormes, passarinhos, macacos... É um refúgio dentro de São Paulo. |
| Victor Vieira: E você não tem medo de cair lá de cima? |
| Renata Rodrigues: A gente usa corda e equipamentos muito seguros, Victor! E além da escalada, estou estudando japonês. Veja. |
| Renata Rodrigues: |
| Victor Vieira: Japonês? Sério? Mas por quê japonês? |
| Renata Rodrigues: Por que não? A vida é curta. Liberdade tem uma comunidade japonesa enorme. É o maior bairro japonês fora do Japão. Eu adoro ir lá no final de semana. |
| Victor Vieira: Comprar aquelas coisas diferentes nas lojas? |
| Renata Rodrigues: Sim! Mas não é só isso. Eu adoro a comida. E eu queria conseguir ler o cardápio de um izakaya sem precisar apontar para as fotos como uma criança. Eu sempre me sinto muito boba lá. O garçom vem, e eu aponto o dedo e falo: "Eu quero esse desenho aqui". Agora eu já sei algumas palavras! |
| Victor Vieira: Você é estranha. Eu digo isso com o maior carinho. |
| Renata Rodrigues: E você veio de Campinas às seis da manhã para comprar cogumelos. Nenhum de nós é normal. |
| Victor Vieira: É, você tem um bom ponto. A gente é apaixonado pelo que faz, né? Gente normal não acorda às quatro da manhã para ver funghi porcini. |
| Renata Rodrigues: Falando em coisas que não são normais... Como estava o trânsito perto da Marginal? Ouvi no rádio que teve obra na noite passada na altura da Ponte das Bandeiras. |
| Victor Vieira: Obra. Acidente. Uma moto caída na faixa. Um pneu misterioso no acostamento. O normal. São Paulo sendo São Paulo. |
| Renata Rodrigues: Um pneu misterioso? Como assim? De onde ele veio? |
| Victor Vieira: Ninguém sabe! Era um pneu gigante, tipo de caminhão. Estava lá, sozinho, jogado no meio da rua. E as pessoas freavam para olhar o pneu. O trânsito parou por muito tempo só por causa disso. Aí, logo depois, teve o acidente da moto. O cara estava bem, mas a moto estava no chão. É sempre um caos completo. |
| Renata Rodrigues: Que loucura, nossa. Eu não gosto de dirigir aqui. Eu vim de metrô hoje. Eu pego a linha dois-verde, faço baldeação na Consolação. Quarenta minutos porta a porta. Hoje foi bom dia. |
| Victor Vieira: Quarenta minutos em São Paulo é um luxo. Mas aquela baldeação na Consolação é terrível, né? O túnel nunca termina. |
| Renata Rodrigues: É um túnel gigante! E de manhã, todo mundo anda muito rápido. Ninguém olha para o lado. Se você parar, as pessoas passam por cima de você. Mas pelo menos não tem pneu misterioso no meio do túnel. |
| Victor Vieira: Você sabe que Campinas tem a Rodovia dos Bandeirantes também, que supostamente é melhor que a Anhanguera? |
| Renata Rodrigues: Sim, eu ouço o pessoal falar que a Bandeirantes é mais rápida e tem menos caminhões. |
| Victor Vieira: Mentira. Elas revezam qual vai ser o inferno na semana. Uma semana é a Anhanguera, na outra é a Bandeirantes. Não existe fuga. O trânsito sempre vence. |
| Renata Rodrigues: Por que você não fica em SP mais vezes? Evita esse trânsito todo. Tem um quarto disponível no sétimo andar aqui do prédio, acho. O vizinho vai se mudar no mês que vem. É um apartamento bom. |
| Victor Vieira: Morar aqui? Porque meu restaurante precisa de mim. E porque SP me esgota de uma forma que a Anhanguera nunca conseguiria. |
| Renata Rodrigues: São Paulo é muito barulhenta para você? |
| Victor Vieira: Muito. Eu amo a energia de São Paulo, mas suga a minha alma. Campinas é o meu lugar. É a minha casa, o meu tamanho de cidade. Eu venho aqui, encontro meus fornecedores, tomo o melhor café da cidade com você e volto para a minha paz. |
| Renata Rodrigues: Bom, se você não quer morar aqui, pelo menos pode aproveitar as coisas boas quando vem. Então... eu estava guardando esse café para uma ocasião especial, mas você parece precisar mais do que eu. |
| Victor Vieira: O que é isso agora? Você tirou um pote secreto daí. |
| Renata Rodrigues: Blend que eu criei. Fui eu mesma que fiz a mistura. Metade Santos, metade Cerrado Mineiro. Torrada clara. |
| Victor Vieira: Metade Santos, metade Minas? Você está virando uma cientista do café agora? |
| Renata Rodrigues: É! O Cerrado Mineiro tem um sabor mais forte, sabe? E o de Santos é mais doce. Quando a gente mistura na proporção certa, fica incrível. Você vai provar e depois vai me dizer que mudou sua vida. |
| Victor Vieira: Sabe de uma coisa, Renata? Você deveria abrir uma cafeteria própria, sabe? Um espaço de verdade. |
| Renata Rodrigues: Mas aqui é um espaço de verdade! A gente tem café, tem pão de queijo, tem clientes. |
| Victor Vieira: Não que isso aqui não seja real, mas... um lugar só seu. Com o seu nome na porta. Com uma cozinha maior. Você tem muito talento para ficar só nesse cantinho do prédio. |
| Renata Rodrigues: Penso nisso. É o meu sonho, na verdade. Mas eu ainda estou juntando dinheiro. Tudo em São Paulo é muito caro. E também estou estudando japonês, fazendo meus cursos. Um projeto de cada vez. |
| Victor Vieira: Você está certa. Mas quando você abrir o seu lugar, me avisa. Quando você abrir, eu faço o cardápio de comida. Cafeteria com comida autoral. Vila Madalena vai implodir de ciúmes da gente. |
| Renata Rodrigues: Uma cafeteria de cafés especiais com cardápio do chef Victor Vieira? O sucesso é garantido. Trato feito. Aperta a mão. |
| Victor Vieira: Trato feito. E eu não estou brincando, viu? Eu faço o cardápio. |
| Victor Vieira: ...Você não estava mentindo. |
| Renata Rodrigues: Eu falei! Gostou do Cerrado Mineiro na mistura? |
| Victor Vieira: É fantástico. O sabor fica na boca por um tempão. Mudou a minha vida, como você prometeu. |
| Renata Rodrigues: Nunca minto sobre café. É a minha regra de ouro. |
| Victor Vieira: Tudo bem. Agora eu realmente preciso ir. Vou ao encontro dos cogumelos de Jundiaí e do Seu João. Se der tudo certo hoje, você vai ter um prato novo para acompanhar seu cafezinho especial da próxima vez. |
| Renata Rodrigues: Vou cobrar aquele caldo de mandioca, viu? Boa sorte com o fornecedor novo. E com a Anhanguera na volta. Vai precisar de paciência. |
| Victor Vieira: Nem me fale da Anhanguera agora. Reze por mim. |
| Renata Rodrigues: Já estou rezando. Tchau, Victor! Bom trabalho! |
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